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Descendentes ucranianos que fundaram igreja tradicional em Fazenda Rio Grande, falam de sua ligação com a cidade

“Povo simples e trabalhador, que de todos os cantos surgiu”. O hino fazendense que é conhecido por todos os pioneiros e muitos outros moradores é certeiro no que se refere à riqueza cultural da cidade. Ucranianos, poloneses, japoneses, italianos e muitas outras descendências ajudaram a formar Fazenda Rio Grande, tal como é hoje.

Gente que já se foi ou que ainda está aí para narrar as mais diversas histórias. Como a dona Catarina Baran Guerra, de 65 anos. Nascida e criada no Passo Amarelo, ela foi uma das primeiras professoras do município e também ajudou a fundar a tradicional igreja ucraniana.

Filha de pai ucraniano e mãe polonesa, ela conviveu com as duas culturas, mas só aprendeu a língua e os costumes ucranianos mais tarde. Isso porque os pais preferiam se comunicar em português para facilitar, já que cada um falava uma língua diferente.

Catarina estudou até a 4ª série no Educandário Sagrado Coração de Maria. Por isso, foi convidada a ser professora pelo então prefeito, Erotides Ângelo Nichele. “Ele chegou aqui no Passo Amarelo e falou pro meu pai: ‘diz que a pessoa mais estudada aqui é a sua filha. Nós queremos que ela vá dar aula’”, lembra.

Anos mais tarde, ela começou a fazer Magistério em Mandirituba. Ia sempre de bicicleta e passava o dia todo por lá. Estudava até nos finais de semana. E o talento com as crianças, acabou indo além dos livros. Ela lembra que se preocupava quando uma criança não aprendia as matérias, de modo que mal conseguia dormir à noite.

“E também quanto à higiene, à educação, eu sempre estava junto com os pais, ajudando. As crianças vinham sujinhas pra escola, então a gente sempre conversava com os pais. E foi com isso que eles começaram a caprichar mais”, conta dona Catarina que até mesmo passava remédio de piolho da cabeça dos alunos.

Filha de pais religiosos, que ajudaram na fundação da igreja ucraniana do Passo Amarelo, ela não deixou os costumes de lado e começou a dar catequese e ensinar a cultura ucraniana às crianças e jovens. O primeiro padre que rezava a missa na igreja, segundo ela, era trazido da Colônia Marcelino, em São José dos Pinhais, de carroça.

Questionada sobre a possibilidade de se mudar, ela diz que gosta mesmo de Fazenda Rio Grande e que não trocaria a cidade. “Eu participo da melhor idade durante a semana. Temos fisioterapia na terça feira, na quarta é baile, na quinta a gente viaja, na sexta baile de novo. Então a gente se diverte muito, não precisa melhor vida que aqui”, destaca.

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Resgate da cultura

Na primeira igreja ucraniana do Passo Amarelo, as missas eram todas rezadas da forma tradicional e na língua ucraniana. A cultura, porém, foi se perdendo com o tempo. “Em 2002 o padre se deparou com a dificuldade que as pessoas, que não eram do rito ucraniano, tinham para entender o que se rezava. Então ele trouxe a mesma liturgia do rito ucraniano só que em português”, afirma a catequista Rosane Starepravo Roik.

Segundo ela, isso trouxe a perda da tradição religiosa ucraniana e até mesmo a identidade da igreja. “Não éramos nem latinos, nem ucranianos”, destaca. E foi por meio disso que ela e outras pessoas resolveram trazer um resgate da cultura.

Em 2008, Rosane foi convidada a dar catequese e buscou cursos de formação. Além dos costumes, ela conta que também buscou ensinar às crianças o idioma. Nesse sentido, ela destaca a importante ajuda de uma senhora ativa na comunidade, mas já falecida, dona Isidora Bida. Assim, com a ajuda e dona Catarina, eles foram aos poucos trazendo novamente as tradições ucranianas à igreja.

Em 2014, eles voltaram a rezar uma missa inteira no idioma ucraniano, também graças à ajuda da irmã Nádia, da Colônia Marcelino. “De lá para cá a gente celebra uma vez por mês. Duas celebrações são feitas no rito ucraniano, mas são rezadas em português”, diz.

Além das tradições religiosas, a cultura ucraniana também é rica em cores, símbolos, gastronomia e até hobbies, que são mantidos pelos descendentes. Márcio Negrelli que participa da igreja há 10 anos com a avó, é exemplo no que se refere à manutenção dos costumes.

Com maior orgulho, ele borda roupas e panos como aprendeu ainda pequeno. “Isso é coisa da família, minha avó falou que eu ia aprender, me ensinou, e estou bordando até hoje”, conta. Segundo ele, não é comum que homens tenham esse hobby, mas ele enxerga como algo muito valioso e diz que, para bordar, é preciso estar bem, pois o sentimento passa para o tecido.

O que ele mais espera, é que os costumes não se percam, não terminem nessa geração. Por isso, com dona Catarina, Rosane e outros colegas, tem buscado trazer de volta a tradição ucraniana.

Por: Dayanne Wozhiak

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