Trigêmeos são aprovados ao mesmo tempo no Vestibular da UFPR

 Trigêmeos são aprovados ao mesmo tempo no Vestibular da UFPR
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Trigêmeos com a mãe (foto Leonardo Bettinelli)

Jacira Mayumi Abe Aracema reviveu no dia 17 de janeiro a sensação de 18 anos atrás, quando o médico responsável pela ecografia gestacional foi identificando um, dois e, finalmente, três bebês. Só que, agora, a notícia que veio aos poucos foi a aprovação dos filhos trigêmeos no Vestibular 2024 da UFPR: primeiro ela soube que Renata tinha passado; em seguida, André e, por fim, Stefan. “Nas duas situações demorou pra cair a ficha. É uma emoção muito grande”, diz Jacira.

O ingresso dos três irmãos numa universidade pública é o ápice de uma trajetória escolar cumprida em escolas também públicas de Curitiba. Eles fizeram o ensino fundamental na Escola Municipal Papa João XXIII e o médio no Colégio Estadual Pedro Macedo, sempre com ótimo aproveitamento. Em 2023, inscreveram-se no Em Ação, cursinho pré-vestibular gratuito mantido por voluntários, a maioria alunos ou ex-alunos da UFPR.

Mais de uma semana depois da divulgação da lista de aprovados, Jacira ainda fica com a voz embargada e os olhos úmidos ao falar sobre o assunto. Não é para menos. A jornada da família até aqui não foi fácil. Em 2020, já afetados pelo isolamento provocado pela pandemia de Covid-19, os trigêmeos perderam o pai, Renato, vítima de câncer. Sem o provedor, a família passou a viver da pensão recebida por Jacira, e os trigêmeos inscreveram-se no vestibular na categoria de cotas para estudantes de escola pública com renda familiar per capita inferior a 1,5 salário mínimo. “É um encontro entre a oportunidade oferecida pela universidade e três jovens que querem estudar e aprender. Uma conquista que eles alcançaram com muita dedicação”, diz Jacira. Ela conta que a educação dos trigêmeos sempre levou em conta o respeito às suas individualidades: “São personalidades diferentes, e deixamos que cada um descobrisse o que quer e do que gosta, sem imposições”.

Isso ficou claro nas escolhas feitas para o vestibular: André foi aprovado em Ciências da Computação; Renata, em Artes Visuais; e Stefan, em Ciências Econômicas. E todos parecem muito seguros das respectivas decisões.

Stefan quer trabalhar no mercado financeiro e está tão determinado que abriu mão de indicar uma segunda opção de curso no formulário de inscrição no vestibular. É o mais expansivo dos três irmãos e estava tão confiante na aprovação que foi esperar o resultado no Campus Agrárias da UFPR, onde aconteceu o banho de lama. “As provas discursivas do curso de Ciências Econômicas são de Matemática e História, minhas matérias favoritas. Até um tempo atrás a UFPR parecia um sonho meio impossível, mas saí da prova tranquilo, e agora é realidade”, conta.

André, mais introspectivo, preferiu esperar o resultado do vestibular em casa, ao lado da mãe e de Renata, e não saiu nem mesmo depois do resultado. Ele conta que sempre gostou de Matemática. Integrou a equipe de robótica da Escola Municipal Papa João XXIII e depois, como estudante de ensino médio, ganhou duas medalhas de bronze na Olimpíada Paranaense de Matemática, o que o levou a participar do Programa de Iniciação Científica Jr (PIC) do Departamento de Matemática da UFPR. Seu plano é trabalhar com desenvolvimento de software.

Já Renata não abriu mão do banho de lama, mas só depois de se certificar, em casa, de que tinha sido aprovada. “Quando deu 14 horas, abri a lista de aprovados e vi o meu nome, depois o do André e o do Stefan. Quase não acreditei”, conta. Renata diz que desde pequena gostou de desenhar, mas tinha dúvidas sobre que curso escolher: “Comecei a pesquisa, passei por vários cursos, mas quando vi Artes Visuais me encaixei completamente”. Seu projeto é ser professora: “Quero ensinar de forma diferente, que seja interessante para os alunos”.

Um símbolo de união

O fato de terem sido aprovados no mesmo vestibular parece reforçar o elo entre os trigêmeos, que está expresso também em seus nomes. Quando eles nasceram, no dia 25 de junho de 2005, os pais decidiram acrescentar uma letra A entre o prenome e o sobrenome de cada um. Assim, eles foram registrados como André Akira A Abe Aracema, Renata Ayumi A Abe Aracema e Stefan Ryoji A Abe Aracema.

A letra A, inicial dos nomes das duas avós, é uma espécie de mensagem que os pais quiseram deixar para os filhos, lembrando-os de que devem sempre contar um com o outro e reforçar o elo que os une. “Muita gente pergunta se é a abreviatura de um sobrenome, mas é um símbolo da ligação entre eles”, conta a mãe. “Tenho certeza que hoje o pai estaria muito orgulhoso deles.”

Cursinho solidário

Os três irmãos são unânimes em dizer que a participação no cursinho Em Ação foi determinante para a aprovação na UFPR. “Não só pelo conteúdo, mas também pela forma de abordagem dos professores, que são maravilhosos”, destaca Renata. Ela e Stefan fizeram o cursinho presencialmente (todos os sábados, domingos e feriados, das 8 às 20 horas), numa sala cedida pela UFPR no Centro Politécnico; André preferiu estudar em casa, com as apostilas do Em Ação.

“Não é fácil assistir aulas todo fim de semana, 12 horas por dia. Eles foram alunos excepcionais”, diz a coordenadora do Em Ação, Stéphani Maria Caetano da Luz. Segundo ela, em 23 anos de atividade, o cursinho já preparou mais de 5 mil alunos, e a cada ano entre 60% e 70% são aprovados em vestibulares.

Assim como Stéphani, formada em História pela PUCPR, a maioria dos professores do Em Ação são ex-alunos do próprio cursinho solidário. Todos são voluntários. Ao todo, entre professores, coordenadores e equipe de apoio, cerca de 150 pessoas se dedicam ao trabalho de apoiar pessoas que sonham ingressar numa universidade mas não possuem condições adequadas para uma boa preparação. Além das aulas, o Em Ação oferece apoio psicológico e, quando necessário, até financeiro aos alunos.

Anualmente são ofertadas 300 vagas para o curso extensivo (divididas entre Curitiba e São José dos Pinhais) e 150 para o semiextensivo. Como há sempre mais candidatos do que vagas, é preciso passar por um teste seletivo. As inscrições para o Extensivo 2024 podem ser feitas até o dia 2 de fevereiro, no site https://www.emacao.org.br/. Para se inscrever, é preciso ter renda familiar máximo de 1,5 salário mínimo por pessoa.

Por Lorena Aubrift Klenk – Comunicação NC/UFPR

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