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As memórias de quem viu tudo acontecer: uma visita rápida à pequena mercearia de Seu Rubico

Por: Gabriel Sawaf

A pequena mercearia próxima da Câmara Municipal de Campo do Tenente é atrativa pelos doces em seu balcão. Crianças e adolescentes vão até lá para comprar doces com algumas moedas que lhes sobram e as dão para o simpático senhor de 81 anos, que pega o pode das guloseimas e entrega aos pequenos tenentianos . Só que os doces e os demais produtos do estabelecimento não são a principal atração do comércio.  Rubens Roldão de Sá Ribas, o proprietário do local, é muito conhecido na cidade, principalmente pela alcunha de Seu Rubico.

Engana-se quem acha que a pequena mercearia é a fonte de vida. “Tenho renda para viver bem. Isto aqui é para eu não ficar trancado em casa, para sempre ter gente aqui para conversar comigo”, afirma Seu Rubico. A cuia de chimarrão está sempre na bancada esperando alguém chegar para dividi-la. E tome cuidado para não errar a vez, pois Rubico está sempre de olho na roda e sabe muito bem a ordem que o mate deve passar. Junto com o chimarrão, tem que ter uma conversa, no nosso caso o assunto foi sobre a história da cidade.

Seu Rubico pode dizer que viveu a cidade por completo. Ele nasceu em 1936, ou seja, 25 anos mais velho que a própria cidade. Quando Rubens nasceu, o município ainda era distrito de Rio Negro. Ou seja, as ruas tenentianas traçam um pouco da vida deste nosso simpático personagem, que vive no mesmo endereço a mais de 60 anos. Na sua juventude, seu Rubico diz que gostava de dançar. “Aquela época era muito tranquila. Os rapazes e as moças tinham bastante amizade, então a gente formava blocos de carnaval e sempre fazíamos dancinhas”. Numa dessas “dancinhas”, acabou conhecendo sua esposa, que veio de Curitiba.  “Naquele tempo as moças não viajam sozinhas. E uma moça daqui foi trabalhar em Curitiba na casa de uma irmã da minha esposa. E para ela vir ver os pais delas teria que vir alguém junto. Veio ela e minha esposa e quando elas vieram teve um show no clube. Só vi elas, mas não se falamos. No outro dia foi a festa do Divino e elas também foram e começamos a meio que conversar. Na noite daquele dia teve uma festa no clube e elas também foram e eu queria saber se ela dançava, então mandei um amigo meu ver se ela dançava e ela não dançou e me chamou de amigo da onça. Daí eu fui sentar na mesa dela e começou o namoro”, relembrou. Como o próprio Rubico resumiu “começo de namoro não é fácil, ainda mais naquele tempo”. Hoje os dois vivem juntos em Campo do Tenente, casados há 55 anos.

O namoro de Seu Rubico influenciou na instalação da Câmara de Vereadores de Campo do Tenente. No dia 8 de Outubro de 1961, data do aniversário de 25 anos de Rubico, ocorreu a primeira eleição da cidade, na qual foi eleito vereador, sem saber o que fazia um. E graças a sua então noiva ele descobriu e ajudou na instalação do órgão. “Eu me vi na obrigação de aprender o que era um vereador, porque eu não sabia. Então na primeira oportunidade que tive fui para Curitiba ver minha noiva e procurei uma livraria, onde achei um livro que nos deu condição de instalar a Câmara. Este livro nos ajudou muito e nós começamos da estaca zero”, enfatizou.

Rubico exerceu várias funções na cidade. Desde os 13 anos era alfaiate. Passado o tempo, quando era vereador, foi tesoureiro na cidade e também convidado para atuar como secretário do colégio. No começo da década de 60, Seu Rubico se mantinha em todos esses cargos. E ele mesmo conta sua rotina. “Eu levantava de manhã e das 7h até as 8h45 eu ficava costurando na alfaiataria que era anexa a minha casa. Depois ia para prefeitura e ficava até 11h30, vinha para casa, almoçava, aproveitava para costurar até 12:45, voltava para a prefeitura, trabalhava até as 17h lá, comia alguma coisa em casa e as 18h ia para o colégio. As 21h30 se encerravam as atividades, vinha para casa e ia costurar com minha esposa até 23h30 ou 00h”, contou para muitos ficarem pasmos.

Além de fazer parte da história da cidade, Seu Rubico foi essencial para que ela ainda existisse, e não só pela memória, mas financeiramente mesmo.  “Como começamos a cidade da estaca zero, a prefeitura não tinha recursos financeiros e no primeiro ano, com quatro funcionários, não tínhamos condição de fazer nada, inclusive de pagar os salários. Eu via a dificuldade e fiz uma proposta ao prefeito, que eu podia trabalhar ate chegar a verba federal, que entrava em julho, e trabalhei sete meses sem receber, recebendo tudo de uma só vez”.  Além de ajudar o município a se estabilizar financeiramente, Rubico aproveitou a verba recebida para comprar a casa de sua tia, onde vive até hoje.

Então já sabe. Ao visitar Campo do Tenente não deixe de visitar a mercearia do Seu Rubico. Vários doces, chimarrão e uma boa conversa te esperam por lá. E não ache que a idade longa pode encurtar o prazo da visita, pois ele ainda espera ficar mais tempo lá. “Eu nasci em Campo do Tenente. Cresci em Campo do Tenente. Vivo em Campo do Tenente e quero morrer em Campo do Tenente, e não tenho pressa, viu?”, deixando o recado para todos.

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